Minha empresa ainda faz sentido?

Bernardo Bardawil · 2 min de leitura

Toda empresa que dura o suficiente chega no ponto em que o dono acorda e pergunta se aquilo ainda faz sentido. Não é fraqueza. É o sinal de que ou a empresa mudou, ou o dono mudou, e os dois pararam de caber no mesmo lugar.

Cheguei nesse ponto duas vezes, e respondi de formas opostas. As duas foram decisão, não desabafo.

Na primeira, o negócio da família era uma borracharia. Eu não cabia ali, e a saída óbvia era abandonar. Antes de abandonar, parei e perguntei o que aquilo tinha que valia ouro. A resposta era uma só: uma base de clientes que confiava. Não joguei a história fora, dei outro capítulo a ela. Transformei a borracharia em oficina, mesmo espaço, outro propósito. Essa única decisão virou metade do faturamento do varejo do grupo. Ressignificar não foi sentimento. Foi ler o que já existia e decidir o que fazer com aquilo.

Na segunda, não dava para ressignificar. Eram vinte e cinco anos de empreendedorismo, e o que precisava mudar não era a empresa, era eu. A decisão foi a inversa: largar tudo e recomeçar do zero, em outra cidade, sem o escudo da trajetória, com uma empresa nova que não tinha nome, nem história, nem alma. Cada tijolo de novo.

A diferença entre os dois momentos nunca esteve na circunstância. Esteve na decisão. Ressignificar e recomeçar são respostas opostas para a mesma pergunta, e as duas exigem coragem. O que não é resposta é continuar reclamando, ano após ano, de uma empresa que você, no fundo, já decidiu não mudar.

Recomeçar é brutal, ressignificar é ingrato, mas os dois têm dono. A paralisia também tem dono, ela só finge que a vida decide por ele.

No fim, a palavra que sustenta tudo isso é a mais repetida e a mais fugida do mundo dos negócios: decisão.