O zelo que custa caro

Bernardo Bardawil · 2 min de leitura

Passei anos adiando decisão e chamando isso de zelo. Esperar a hora certa era o meu pretexto, e ele parecia virtude: não era preguiça, era cuidado. O mercado me cobrou a diferença entre as duas coisas.

A cobrança veio quando assumi a SunNext e entrei no mercado de energia renovável, uma operação que cheguei a comandar em 18 estados como CEO. Ali a hora certa dura um dia, às vezes menos. Câmbio, tarifa, regulação e custo de equipamento se movem juntos, e quem espera a poeira baixar descobre que a poeira não baixa: ela muda de direção.

Aprendi rápido que decisão adiada não é prudência, é custo acumulado. Enquanto o dono espera o número fechado, o caixa financia a indecisão com capital que tinha destino, a margem cede ponto a ponto sem nenhum evento que a justifique, e o timing do médio prazo passa a ser decidido por quem se moveu antes.

O relatório contábil não resolve isso, porque relatório é retrovisor. Ele é preciso, auditável e indispensável para prestar contas, mas quando confirma o problema o prejuízo já entrou. Quem dirige olhando para trás não decide: constata. O dado que chega pronto já chega velho.

A resposta que construí foi contraintuitiva. Coloquei o dólar em todas as páginas do meu telefone: não desbloqueio a tela sem saber onde ele está. Não é obsessão nem ansiedade de mercado, é mecanismo. Pequenas informações diárias, olhadas sem esforço, somadas ao longo das semanas, formam um contexto que nenhum relatório mensal entrega a tempo.

É por isso que decidir sem esperar o fechamento não é decidir na emoção. É o contrário. Emoção é decidir no susto, quando o número fechado finalmente confirma o que o mercado já tinha mostrado semanas antes. Contexto construído todo dia é o que permite agir cedo com frieza, porque a decisão não nasce de um impulso: nasce de uma leitura que vinha sendo feita.

Foi esse método, e não a espera, que sustentou a operação até colocarmos 3 usinas em operação. O zelo verdadeiro não está em adiar até ter certeza. Está em construir, todos os dias, a informação que dispensa a espera.