A variável errada
Há algum tempo eu trouxe, aqui, as variáveis que travam o investimento em energia no Brasil: juro, câmbio, preço de módulo, imposto de importação, Fio B, tarifa. Os números. Hoje volto ao mesmo assunto sem trazer mais nenhum, porque o problema do investidor de energia neste país nunca foi falta de dado. Foi ler o dado errado.
Quem espera o cenário ficar claro para investir está lendo a variável errada. Juro e câmbio nunca vão assentar; é da natureza deles oscilar, e esperar que parem é esperar por uma coisa que não vem. Enquanto isso, a variável que pesa de verdade já está escrita: o Fio B já saltou para 60% em 2026 e chega a 90% em 2028. Não é incerteza, é uma decisão já tomada contra o investidor, com data marcada. O amador trava no que oscila. Quem opera age sobre o que já está cravado.
Eu migrei para energia de propósito, depois de mais de duas décadas operando outro setor. Hoje possuo três usinas em operação e já estou analisando novas aquisições. A primeira coisa que esse mercado ensina é a escala do tempo. Uma usina não é aposta de ciclo, é ativo de 25, 30 anos. Olhar para um ativo desses pela lente do juro do trimestre é trazer o relógio errado para a mesa.
Porque energia não é um ativo qualquer. É o ativo pelo qual o mundo está em guerra, hoje, abertamente. Quem domina geração domina o que país nenhum consegue terceirizar. Essa força não cabe em planilha de payback, e é justamente ela que sustenta a tese: o valor de longo prazo de um ativo que o planeta inteiro disputa não se mede pelo custo de capital de um ano só.
O investidor que entende isso troca a régua. Estende o projeto, aceita retorno mais magro no começo e vai buscar o ganho lá na frente, onde ele de fato mora. A conta que quase ninguém faz: a inflação energética no Brasil roda na casa de 8% a 10% ao ano. Capitalize isso por 25 anos e veja o que sobra. O retorno não está no primeiro ciclo, está na curva inteira, e a curva é da energia, não do humor do mercado.
Todo estrategista sério no Brasil conhece o problema: o brasileiro é imediatista. Não joga o jogo longo, porque desconfia de tudo, troca de governo, troca de lei, o de sempre. As desconfianças são reais, mas são ruído, e ruído não entra no cálculo de um ativo de trinta anos. Tirado o ruído da mesa, sobra o retorno real. O padrão brasileiro de só acreditar no resultado de última hora não é prudência, é desistência travestida de cautela.
Quem largou esse jogo esqueceu que a partida não acaba quando o placar aperta. Acaba quando o apito toca. E esse apito, na energia, ainda tem vinte anos para soar. Quem decidir agora vai estar em campo quando ele tocar. O resto vai estar na arquibancada, explicando por que esperou.